junho 03, 2008

Anchut

Era raro termos água para beber, ou algum animal para comer. Álias para minha tribo animais eram sagrados, comê - los era uma total falta de respeito. Porém quando não restava outra opção o faziamos. Já fazia muito tempo que estavamos caminhando debaixo do sol quente do deserto, os meus pés estavam cheios de bolhas e sangrando de modo que eu deixava meu rastro na areia. Porém todos caminhavam calados a procura de uma árvore para podermos sentar e descançar um pouco. Eu estava faminta. Não tinha comido desde o dia anterior.

Naquele dia somente meus irmãos menores tinham se alimentado, pois tinhamos pouco leite e quando isso acontecia eram eles os favorecidos. Um dos favorecidos nesse dia foi um dos meus irmãos menores. Anchut. O mais clarinhos entre os morenos. Dos olhos mais bonitos. Muito esperto. Ele era meu preferido.Quando eu precisava sair para procurar alimento com ordem do meu pai era ele que eu chamava para me fazer companhia. E ele ia comigo a todos os lugares sem reclamar. Às vezes ele sentava na areia e começava a bater nos pezinhos e choramingar, tentando explicar que estavam queimando. Anchut não sabia falar. Então eu o colocava sobre meus ombros. E ele ia o caminho todo alisando meus cabelos como sinal de agradecimento.


Então certa manhã, mamãe nos acordou mais cedo. Ela nos disse que pelo posicionamento do sol achava que aquele dia era aniversário de Anchut. Anchut ficou todo feliz, batia palmas e depois erguia as mãozinhas no ar. Não era todo dia que se fazia 4 anos. E ainda, em dia de aniversário o aniversariante sempre comia toda a comida sozinho. O resto da família não reclamava. Chegaria nossa vez. Na hora da sesta, Anchut sentou - se todo feliz esperando anciosamente seu presente. Meu pai conseguiu encontrar uma cobra um tanto quanto pequena, porém mataria sua fome. Anchut não precisaria comer nem a noite. Devorou - a todo feliz. O resto da família ficou deitada tentando dormir para esquecer a fome. Anchut então foi até mim e me cutucou. Eu olhei para ele e ele abriu a mãozinha minúscula. Ele guardara um pedaço do seu presente para mim. Fiquei tão feliz que mal pude me conter. Agarrei - o e fazia cócegas em sua barriga. Ele adorava isso. Porém não me alimentei. Insisti para que ele comesse, afinal era seu presente de aniversário. Ele tentou enfiar o pedaço da cobraem minha boca, mas eu não comi. Chamei a atenção dele falando que tinha adorado a sua atitude porém era aniversário dele e eu não comeria sequer um pedaço do seu alimento. Ele então meio decepcionado enfiou o resto na boquinha. Eu estava muito feliz. Eu era a favorita de Anchut como ele era o meu. Anchut se deitou do meu lado para descansar também.


Ao anoitecer meu pai me acordou me mandando encontrar um pouco de comida para a manhã do dia seguinte. Eu não fiquei brava com ele. Eu era a mais velha, estava acostumada a isso. Cutuquei Anchut e pedi para ele ir comigo. Sem hesitar ele se levantou e grudou no meu manto. E começou a caminhada na escuridão. Porém Anchut estava estranho. Ele andava vagarosamente e estava um pouco gelado. Disse a ele se ele queria meu manto. Mas ele fez que não com a pequena cabecinha. Continuei andando, e Anchut andava tão lento que quando eu percebia ele estava muito atrás de mim. Coloquei - o em meus ombros e dessa vez ele não alisou meus cabelos, somente se deitou em cima da minha cabeça. De repente algo líquido começou escorrer pelos meus ombros, Anchut tinha vomitado em mim. Fiquei muito preocupada, mas cheguei até a raiar com ele dizendo que ele poderia ter virado a cabeça para vomitar. Quando achei uma claridade percebi, para o meu maior desespero, que Anchut tinha vomitado sangue. Muito sangue. Desperada tirei Anchut dos meus ombros e coloquei - o deitado na areia. Tirei meu manto e o cobri. E lhe jurei algumas palavras: ' Anchut, preciso achar algo para amanhã. Se eu voltar sem comida para tribo, papai nos bate. Vou correndo Anchut, te prometo. Voltarei muito rápido. Te prometo pequeno '.


Sai correndo então a procura de algo para comer, corri muito, corria tão desesperadamente que às vezes eu reparava que estava correndo em círculos. Graças a deus achei um pequeno pedaço de um viado que os leões ficaram com preguiça de devorar. Corri o mais rápido que pude de volta até Anchut. Quando cheguei, puxei - o pelo bracinho, ' Anchut, venha, achei algo. Vamos embora. Mamãe vai cuidar de você. ' Porém ele não se moveu. ' Anchut, venha '. Não se moveu de novo. Anchut estava gelado. Estava morto. Comecei chorar, a me bater, eu queria morrer. Com certeza ele comera uma cobra envenenada. Não era a primeira vez que isso acontecia na minha família. Mas Anchut? O MEU Anchut? Anchut era muito esperto. Muito forte. Abracei o corpo do meu irmãozinho e comecei a "orar" pedindo que me o diabo me levasse. Queria ir para o inferno por ter o abandonado. Eu merecia maldição eterna. Entre choros e desespero, começou a me surgir pensamentos. Será que Anchut sabia que a cobra que ele comera era venenosa? Guardara um pedaço para mim, para levar sua favorita com ele? Entretanto, eu nunca desejava as coisas. Não tinha desejos, nem sonhos, na verdade, nem sabia direito o que era isso. Seja lá o que for, eu nunca "desejei" tanto como naquela hora, ter aceitado o presente do meu favorito.




Conto baseado no Livro ' A Flor do Deserto '. -> Recomendo!

11 opiniões:

*.* InDi *.* disse...

Ahhh sério. Eu também amo penal. Até semestre que vem vou fazer criminalística.

beijosss

Kessia disse...

Olá moça!

uau q historia triste!!

mto obrigada por comentar no meu blog!! =))

pelo post acima parece q vc estuda direito.. é isso mesmo?

bjs!

• Camila disse...

Aaaaaaaaa que lindooooo....
amei o conto amei muitoo
VOU PROCURAR ESSE LIVRO!

Comecei historinha nova...

Vinícius Aguiar disse...

Nossa que história emocionante!! Sempre queremos as pessoas que mais gostamos perto de nós né... seja de uma forma ou de outra! É impressionante como isso se mostra real o tempo todo em nossas vidas!!

Parabéns mesmo, muito lindo!

*Raíssa disse...

Que lindo o texto! Fiquei até com pena dos dois...
Seus textos são legais, li alguns aqui no blog. Vou te linkar, ok?
Beijos

Mustafa Şenalp disse...

çok güzel site. :)

Tiago Torigoe disse...

Ahh brigadaoo kerida \o/
sempre q der eu tbem vo passar aki ok?
nao eskece,lah no talk show tem post tooodo o sabado! :P

beijaoo,se cuida

.a negra. disse...

Num sei se eu sou muitaaa melosa..mas eu chorei mesmo!

Imaginei o desespero da irmã ao ver que seu maninho querido tinha se ido e pior que poderia ter sido ela em seu lugar!

Deus sabe o que faz né?
E por mais que a dor seja grande ele sempre relaiza o certo em nossas vidas.

De ♥ me tocasse fundoo viu!
Beijuu linda guria

pimentinhabm disse...

oi querida!
volte sempre q desejar
sera muito bem vinda!
=*

Three Love's disse...

sabe o que é bom,
muito bom mesmo?

é quando a gente andando, ou navegando, por ai a gente de repente, sem aviso prévio, encontra um lugar assim... cheio de beleza, poesia, repleto de uma vida que até nos parece estranha de tão bela que é.

b.e.i.j.o.s.

Claudia Bártholo disse...

Olá...tudo bem??? prazer Claudinha!
fico feliz que tenha me achado nesse mundo blogueiro, pois adorei tudo que li por aqui...
muito massa!!!
parabéns...
obrigada pelos elogios no blog, meu mais novo vício.
esse conto é fantástico, vou aderir essa leitura.
beijão.

 

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